Menor burocracia do PIX favorece famílias, empresas e e-commerce, dizem especialistas

A nova modalidade de pagamentos instantâneos, batizada de PIX, lançada em fase preliminar em outubro, é obrigatória para instituições financeiras e instituições de pagamento autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil (Bacen), que possui mais de 500.000 contas de clientes ativas.

Depois de duas semanas de testes, durante as quais transitaram aproximadamente R$ 684 milhões em 1.733 milhões de transações, o sistema financeiro começa a operar com todos os clientes, já dispondo de 71 milhões de chaves de endereçamento cadastradas no sistema DICT, gerenciado pelo Bacen. “Este período de soft opening foi bastante intenso por parte de todo o mercado, que se antecipou fazendo ajustes necessários para o lançamento agora, em novembro”, diz Ivo Mósca, Superintendente Executivo do Banco Itaú.

Com o grande número de cadastramento de chaves, espera-se uma adoção bastante rápida no Brasil, principalmente puxada pelos grandes varejistas.

renato_nakagawaRenato Nakagawa é Consultor Financeiro na BÓREA – Consultoria Especializada em Gestão de Escritórios de Advocacia e ex-gerente financeiro do escritório Mattos Filho. (Foto: Divulgação)

Quem serão os maiores beneficiados com a adoção do PIX?

Para utilizar o PIX, uma pessoa precisa ter uma conta-corrente ou carteira digital e cadastrar uma chave PIX, que é uma identificação pessoal e única. Essa chave pode ser o seu CPF, o número do seu celular ou até mesmo um e-mail. A partir daí, você pode realizar transferência de valores que levam menos de 10 segundos para serem processadas e funciona 24 horas por dia. O melhor de tudo é que essas transações, que podem substituir as conhecidas TED’s e DOC’s, são gratuitas para as pessoas físicas.

Já as empresas, que recebem suas vendas principalmente por meio de cartão de débito, serão beneficiadas através da economia dos custos com o “Merchant Discount Rate”, que é a taxa percentual cobrada pelas processadoras de cartão sobre cada transação realizada. Esses custos podem variar entre 1,5% a 5%.

“Os bancos digitais estão aproveitando a oportunidade para captar mais clientes através do seu apelo digital e menos burocrático. Quanto mais usuários em sua plataforma que utilizam o PIX, maior será a movimentação de valores que essa conta irá gerar e por consequência maior será a oportunidade para que esses bancos vendam outros serviços”, reforça Renato Nakagawa, Consultor Financeiro da consultoria BÓREA.

Em paralelo, as empresas de e-commerce serão beneficiadas pela diminuição dos custos de transações financeiras, maior rapidez logística entre estoque e entrega do produto e a vinda de novos clientes que podem optar pela bancarização por conta do PIX.

“Todo o ecossistema financeiro será beneficiado, desde os clientes Pessoa Física, que deixam de pagar tarifas transacionais, até as Pessoas Jurídicas, com a redução das tarifas transacionais e redução do custo do capital de giro, com as transferências com liquidação imediata, além dos bancos e Governo com a redução do custo de transporte e segurança de dinheiro em espécie”, reforça Ivo Mósca.

Para a advogada Karen Paula Sanches da Silveira Ebaid, do Duarte Tonetti Advogados, pequenas e médias empresas serão bastante favorecidas: “As PMEs conseguiram reduzir consideravelmente seus custos por meio do pagamento instantâneo, podendo alocar recursos no fomento de novos negócios”.

Acredita-se que, um dia, essa modalidade irá substituir por completo as transações com dinheiro em espécie ou por meio de transferências bancárias e débitos por transações entre pessoas?

Pela movimentação que os Bancos, as Fintechs e grandes empresas estão fazendo para se adequar ao PIX, podemos enxergar que se trata de um sistema de pagamento que veio para ficar.

“Não há, ainda, indícios de que o dinheiro em espécie será totalmente substituído. Basta acompanharmos outras localidades como a China e a Índia para chegar a essa conclusão. Porém, haverá uma nova onda de digitalização de clientes devido a facilidade e comodidade que o Pix traz para as transações financeiras, aumentando a inclusão social e financeira de dezenas de milhões de brasileiros, reforça Mósca”.

Segundo pesquisas recentes realizadas pelo Instituto Locomotiva, cerca de 45 milhões de brasileiros não utilizam o sistema bancário por questões principalmente econômicas. De acordo com a pesquisa, oitenta e seis por cento dos desbancarizados estão concentrados nas classes econômicas C, D e E, que é a parcela da população menos conectada com a tecnologia e com maior informalidade de trabalho.

“As questões sociais e a falta de informação são barreiras consideráveis para a bancarização e adesão a serviços financeiros”, de acordo com Renato Nakagawa. “Para quem já é usuário da tecnologia e do sistema bancário, existe ainda um processo de adaptação das pessoas na utilização do PIX. Como toda novidade, será necessário incorporar os novos hábitos e ganhar confiança nessa nova opção de transferência de valores. Portanto, existe uma curva natural de adaptação neste novo modelo.”

Ivo_MoscaIvo Mósca é superintendente executivo de Open Banking e Pagamentos Instantâneos do Banco Itaú, membro do Conselho Deliberativo do Open Banking regulatório no Brasil e coordenador da Subcomissão de Pagamentos Instantâneos da FEBRABAN. (Foto: Divulgação)

Quais são os desafios da implementação/manutenção do PIX no Brasil?

Dentre os principais desafios para implementação do Pix no Brasil estão o curto prazo para o desenvolvimento. Todo o mercado se mobilizou em torno desse projeto estruturante, que, apesar de seu lançamento recente, ainda deve contar com evoluções constantes pelos próximos anos.

Apesar de o Pix ser lançado com tecnologia de ponta em termos de segurança de informação, há uma preocupação em torno da engenharia social, que se aproveita da falta de informação dos clientes para obter dados de acesso às contas. “Para evitar fraudes, temos investido em comunicação para que os clientes saibam que o Pix deve ser sempre transacionado via o próprio aplicativo da instituição com a qual o cliente trabalha. É importante que os clientes não cliquem em qualquer link enviado por e-mail, SMS ou WhatsApp, explica Ivo.

Nakagawa ainda pontua que “além da questão social e falta de informação por parte de uma parcela da população, a respeito do novo sistema, as questões tecnológicas serão importantes para a implementação. O sistema precisa ser realmente eficaz e é indispensável para transmitir segurança total ao usuário do PIX.

Como o PIX pode alavancar a competitividade e a eficiência do mercado?

O Pix trará maior competição e eficiência ao mercado ao reduzir os custos transacionais e diminuir a barreira entre instituições. Fica mais fácil deixar o cliente escolher a instituição com a qual quer trabalhar sem aumentar seus custos por questões transacionais.

O executivo do Itaú, Ivo Mósca, cita que “é muito comum que integrantes de uma mesma família trabalhem com a mesma instituição para facilitar o controle e garantir que as transações entre contas sejam gratuitas. Com o Pix e sua gratuidade para pessoas físicas, não há mais essa barreira de custo. Cada integrante da família poderá escolher sua instituição”.

Para a Pessoa Jurídica, o imediatismo da liquidação da transação trará uma redução importante no capital de giro das empresas, principalmente para empresas sem disponibilidade de capital de giro. Ao substituir o uso do dinheiro por uma transação Pix, o recurso vai direto para a conta da empresa, reduzindo custos importantes com cheque especial, por exemplo.

No e-commerce, as vantagens são ainda maiores. Hoje, o comércio digital ainda tem como um dos principais meios de recebimento o boleto bancário, que tem liquidação em um ou dois dias uteis após o pagamento e, portanto, tem sua entrega programada apenas após a confirmação do pagamento do boleto. Com o Pix, o crédito é imediato e a empresa pode disparar seu processo de entrega imediatamente após seu pagamento.

Para os bancos, que hoje contam com um custo anual de transporte na faixa dos R$ 10 bilhões, com o lançamento do Pix e digitalização de novos clientes, terão uma redução importante de custos operacionais e de manuseio do recurso em espécie.

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