Fabio Coelho, do Google: fake news é 'praga' e o nosso objetivo é minimizar essa proliferação

O presidente do Google Brasil acaba de completar 10 anos na liderança da empresa, e revela bastidores e aprendizados, além das perspectivas do setor. Leia, assista ou ouça.  

g_66_0_1_03062021160026Fabio Coelho, presidente do Google. (Foto: Divulgação)

“A pandemia foi uma oportunidade de ajudarmos a fazer a diferença nesse período tão difícil para muitos”, disse Fabio Coelho, presidente do Google no Brasil, em entrevista ao Show Business. Com 22 anos de existência e 15 anos de Brasil, a companhia segue em evidência no mercado digital como uma das grandes empresas do ramo de tecnologia.  

Desde sua criação, em meados de 1998, no estado da Califórnia, onde estabeleceu sua matriz até os dias de hoje, a companhia vem ampliando suas plataformas e chegou desenvolver seu próprio sistema operacional para celulares: o Android; e evoluiu em outra série de recursos para internet, como sistema de e-mail, gerenciamento de tarefas, navegação na nuvem e outros serviços. Atualmente, a empresa se tornou personagem fundamental e presente durante a pandemia. Neste período, seus colaboradores passaram a trabalhar remotamente.

A crise sanitária, que ainda persiste, obrigou o ser humano a se adaptar às novas formas de trabalho e interação, segundo relembrou Coelho. Pessoas passaram a ter uma imersão mais profunda no universo web. Devido ao distanciamento social, houve aumento significativo de reuniões e aulas on-line, lives dos nossos músicos preferidos... Tudo isso passou a fazer parte da rotina de cada um. E é justamente onde o Google está presente nas ações do novo cotidiano.

Como a pandemia afetou os acessos aos serviços Google

 Mais do que nunca, percebemos que as pessoas começaram a buscar informações para ressignificar seus relacionamentos, procurando sobre hábitos de consumo, como estudam, trabalham e se divertem. E isso tudo envolve as plataformas do Google. Exemplo: o Buscador Google, YouTube, Maps, Gmail, Google Class. Só o Workplace é usado por 15 milhões de estudantes no Brasil.  Isso é consequência de as pessoas estarem mais conectadas do que antes. A empresa passou a ter uma participação significativa na vida das pessoas, como nas transmissões de lives com artistas que se conectaram com seu público, por exemplo.

Vocês ajudaram financeiramente no combate à pandemia?

Da nossa parte, foram destinados mais de R$ 150 milhões a iniciativas que combatem os impactos da pandemia. Para incentivar as autoridades de saúde a informar melhor à população, nós doamos R$ 60 milhões. Atuamos também com medidas de proteção aos usuários, convertendo dados confiáveis no contexto sobre vacinação, higiene e saúde. Trabalhamos em conjunto com a OMS; auxiliamos com ONGs como a Amigos do Bem, Gerando Falcões, Potência Feminina, Conexão Educativa... São organizações que nos ajudam a destinar esse dinheiro de maneira ágil e para quem mais precisa. Além disso, fizemos um ‘fundo de emergência’ de R$ 17 milhões para combater à desinformação, mantendo 370 veículos jornalísticos pelo Brasil, em cidades menores. Contribuímos com o governo Federal, com R$ 30 milhões, a partir do nosso webgrant. Ajudamos disponibilizando o aplicativo para resgate do fundo de Auxílio Emergencial na Play Store,  lembrando que 90% dos celulares brasileiros são Android.

Por que nestes 22 anos de existência não apareceu nenhum concorrente potencialmente forte?

Há vários outros buscadores e plataformas de vídeo disponíveis. Qual terá maior destaque, isso acaba dependendo da escolha do usuário final. A preferência pelo Google talvez seja porque estamos focados no usuário final. E, detalhe, estamos em processo de transformação e adaptação constantes. O Google de hoje é completamente diferente de cinco anos atrás, pois investimos no processo de evolução. Outro fator está ligado ao nosso objetivo, que condiz com sermos relevantes e pensar no que podemos oferecer [de bom] à sociedade. Sempre fazemos manutenções diárias para sermos parte importante na vida dos nossos usuários. A imagem virou sinônimo de sucesso, virilidade e de vitória. Já passaram 75 anos desde então, mas esse é um exemplo de como certas inovações estão presentes na memória das pessoas.

No quesito serviços e recursos, quais são as plataformas mais destacadas do Google atualmente?

Nós temos nove plataformas, com mais de 1 bilhão de usuários, dentro desse conjunto, a finalidade é a de oferecer soluções. Dentre as mais conhecidas, destacam-se: o Buscador Google, o YouTube, o Google Maps, o browser Google Chrome, o sistema operacional Android, o Google Cloud (serviço disponível em nuvem), Gmail; Soluções para a Educação (Google for Education) – que é oferecida gratuitamente para o setor público, entre outras.

Como foi para vocês conviverem em isolamento social desde o começo da pandemia até agora?

Coordeno uma equipe de três mil pessoas, algo que, para mim, é um privilégio, ao mesmo tempo em que uma grande responsabilidade. Desde o dia 13 março de 2020, nossos funcionários estão trabalhando em home office. E foi o melhor a ser feito, diante do cenário que estamos. Acrescento que, para ajudar parceiros, clientes, governo e sociedade, devemos fazer o que for possível para que todos fiquem bem. Isso condiz com oferecer a melhor opção de trabalho possível, com base na segurança, ter conhecimento sobre o papel de cada funcionário da empresa. Para trabalhar de casa foi fácil, dentro do nosso segmento que é de tecnologia porque as pessoas naturalmente se conectam no nosso meio.

Quanto tempo você levou para organizar o trabalho dos colaboradores no modo home office?

Praticamente, um dia. Empresas como a nossa têm uma infraestrutura de tecnologia forte e quem conseguiu se adaptar ou migrar a oferta de serviços na web foram àqueles que tiveram uma evidente facilidade na sua própria inclusão digital. Mas, obviamente, isso depende muito do segmento e serviço. Em relação ao Google, propus que, paradoxalmente, em meio ao período de distanciamento social, de que nos aproximássemos das pessoas. Assim, criamos uma cadeia de gestão ligada na proximidade. Entendemos com cautela como seria a reação dos nossos colaboradores durante um prolongado ‘confinamento’, então, houve uma preocupação no impacto da saúde mental de cada funcionário, pois é preciso que empresas e lideranças trabalhem alinhadas com o bem-estar de seus colaboradores. Além de não esquecer o cuidado contra uma eventual infecção da covid. Sempre reitero: queremos ser melhores dentro da nossa possibilidade. É um reforço que faço para nosso time. Com respeito aos indivíduos e suas diferenças, perfis, rotinas e necessidades, que variam. É imprescindível entender e abraçar esse conceito.

Vocês ofereceram apoio psicológico para os funcionários? E como isso foi organizado?

 Disponibilizamos apoio psicológico em tempo integral. O Google possui um processo de ‘ERP’, que auxilia gestores sobre as ações da empresa e de seus funcionários, por meio do programa Employee Assistant Program – que serve justamente para prestar assistência aos nossos funcionários. Essa ação é feita pela equipe de recursos humanos (foco na gestão de pessoas), embora esse seja um trabalho que envolva líderes e coordenadores, que também serve para entender como cada pessoa do nosso time está. É voltado no sentido da colaboração, para ninguém ficar para trás mesmo. Este é um momento em que é preciso haver mais gentileza e sensibilidade e isso deve ser equilibrado com comprometimento com o trabalho.

Vocês aumentaram as sessões de psicólogos e outras assistências? Como lidaram com isso?

A primeira iniciativa foi a divulgação do programa Employee Assistent Program para quem precisar. Um serviço on-line, em que o funcionário tem garantido o anonimato. Este, além de ser trabalho executado pelo setor de Recursos Humanos, envolve a participação dos nossos gerentes, que foram orientados sobre a importância de apoiar os colaboradoires. Para complementar esse apoio, na semana passada, tivemos palestras virtuais sobre gestão de estresse e saúde mental para que nossa equipe pudesse participar. Nesses encontros, foram abordados assuntos importantes em um momento em que as pessoas devem se sentir mais ansiosas. Neste período, fizemos nossa parte de estabelecer uma relação confiança e de bem-estar para o coletivo.

Observando o escritório e matriz das operações do Google no Brasil, é tudo muito colorido e alegre, proporcionando uma sensação de aconchego. Os funcionários sentem falta do contato com o ambiente em que trabalhavam?

Nossos funcionários sentem muitas saudades do espaço físico, porque lá é um lugar onde recebemos clientes, parceiros. Existe a troca de ideias com mais proximidade, sem falar da integração bacana com os colegas também. Mas esse atual modelo flexível deverá prosseguir no decorrer da pandemia. O que eu posso lhe dizer é que trabalhar por meios digitais é algo positivo. Mas, confesso, o presencial complementa e muito esse recurso, porque nada substitui o contato interpessoal. Presencialmente você tem muito mais vantagens, na forma de agir, de se comunicar e pelo dinamismo na troca de experiências.

Já existe um plano montado para a volta ao trabalho presencial?

Não temos como prever quando retornaremos. Queremos garantir segurança ao nosso time, sem riscos de se infectarem no local de trabalho. Futuramente, nosso desejo é unir as expectativas das pessoas e proporcionar mais flexibilidade, isso sim foi pensado desde já. Porque entendemos que é possível o colaborador trabalhar remotamente. No entanto, quando voltarmos ao espaço físico [sem uma data definida de quando isso ocorrerá], esperamos encontrar nossos funcionários lá, todos bem.    

O fato de lidarem com tecnologia condiz com a necessidade de certos insights para que novas criações surjam, para isso, é necessário o contato humano?

Apesar da tecnologia proporcionar tantas vantagens, o contato humano ainda é fundamental para a socialização e descoberta de novas coisas. Às vezes, você precisa ser surpreendido por obras do acaso. Tempos atrás, a proximidade permitia que você fosse pego de surpresa por elementos e novidades observadas ao seu redor.  Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, chama isso de “combustão criativa”, que é aquela energia gerada quando você está próximo a alguém e consegue trocar ideias de maneira dinâmica. No Brasil, temos unidades com recursos avançadas, como o escritório de engenharia em Belo Horizonte.  Mas, na área comercial em São Paulo, o distanciamento social trouxe desvantagens, pois, nesse segmento, há necessidade de interagir com clientes, parceiros comerciais. Antes, fazíamos realização de eventos e criação de grupos para criar estratégias e soluções para levar ao mercado, tudo isso teve que ser readequado para o ambiente virtal.

O retorno às atividades presenciais não depende de uma decisão global então?

Não é uma decisão singular. Isso acontecerá respeitando determinados parâmetros específicos de cada unidade, pois há grupos com diferentes perfis de trabalho, tipos de interação - interno ou externa - que permitem trabalho remoto. Isso depende do engajamento e de outros fatores também. Hoje, na nossa realidade, viajamos menos, as pessoas ficaram mais pontuais, as reuniões começam e terminam com horário previstos...

Mas no ambiente digital, as reuniões não são mais longas?

Depende da cadência da reunião, falo ‘cadência’, porque isso corresponde com o preparo de cada participante, o que será abordado, que perguntas serão feitas, quem irá interagir. Não é possível gerenciar o tempo em alguns casos. Por um lado, você consegue fazer uma interação mais profunda, a tecnologia permite usar artifícios com a vantagem de fazer de qualquer lugar. Porém, reforço que eventos presencias são insubstituíveis.

A Google Brasil tem projetos e planos em curso para serem colocados em prática? E como a situação da pandemia influencia nesse curso?

Difícil fazer uma previsão agora sobre a pandemia. Há países que atingiram índices de imunização a patamares favoráveis. Vai depender muito de fatores como, ritmo de vacinação e a evolução do vírus daqui para frente. Acredito na ciência e nos estudos para a resolução desse problema o quanto antes, algo que é real e afeta a vida de todos. Falando sobre gestão, as empresas de tecnologia tiveram maior evidência durante este período, principalmente no Brasil, aonde viemos para ficar, porque há razões suficientes para continuarmos. A começar pelo alcance de mais de 213 milhões de usuários. Por ser um país continental - aqui existe oportunidades de sermos eficientes e gerar serviços para as empresas - grande parte dos unicórnios que vem surgindo. Outra vantagem é a capacidade criativa e empreendedora do brasileiro, uma das melhores em toda a América Latina. Enfim, tudo isso são ingredientes para mantermos o Google operacional no Brasil. E continuaremos nesta parceria, ajudando os brasileiros e seus empreendimentos. Queremos seguir expandido nossos negócios por aqui.

Qual é a responsabilidade do Google Buscador, em meio às críticas por exibirem alinhados à desinformação? Existe controle para evitar esse problema?

 Nós temos programas para ajudar a disseminação de informação de qualidade. Ressalto que não fazemos papel de ‘donos da verdade’, nem da Justiça. Nosso objetivo é valorizar o conteúdo de qualidade, com o auxílio de uma série de programas que removem fakenews. Reforço ainda que apoiamos o ‘ecossistema’ para o jornalismo qualidade.

Como vocês filtram o que é fakenews no sistema?

Temos entidades credenciadas que listam conteúdos que notoriamente são notícias falsas, mostrando-nos quando o campo de opinião se transforma em informações não verdadeiras. Isso é praticamente uma “praga” no ambiente virtual e o nosso objetivo é minimizar essa proliferação, levando a uma estaca zero. Não é fácil. Há pessoas que até lucram com conteúdos falsos e infelizmente é um problema que ocorre no mundo inteiro. Mas estamos atentos a isso, para remover tantos conteúdos que são comprovadamente fakenews como aqueles que chegam até nós a partir de denúncias dos usuários. Neste último caso, há publicações que precisam ser avaliadas criteriosamente e a exclusão depende de uma decisão judicial.

Por que tem que haver autorização judicial em algumas situações?

A não ser que seja obviamente um crime de ódio, homofobia, racismo e crimes hediondos, tem que haver o crivo judicial. Se o comentário estiver no campo da opinião, por exemplo, nós não poderemos julgar determinadas publicações. Temos que respeitar a liberdade de expressão para perpetuar a nossa presença com qualidade e respeito à diversidade de conceitos. No caso de opiniões divergentes, a imparcialidade é um fator fundamental.

O Google tem se destacado por investimentos em educação. Você poderia falar mais sobre essas ações para o setor?

 Na conjectura da pandemia, os aplicativos para estudar on-line fizeram a diferença. Sendo realista, existe a possibilidade de os alunos brasileiros ficarem até dois anos sem frequentar escolas presencialmente. E esse impacto pode ser minimizado graças às plataformas existentes na web. O G-Suite, por exemplo, é uma ferramenta que ajuda na organização da rotina, permitindo o acesso ao e-mail, calendário, sendo um serviço oferecido a 15 milhões de estudantes no país. O Google Class também abrange grande quantidade de estudantes e professores. Se os estudantes não tivessem condições de estudarem à distância, como seria? Outro desafio é lembrar que o conteúdo nem sempre chega em um formato padrão ou dentro do ideal, seja porque a conexão de internet é ruim e/ou porque os dispositivos são diferentes.

No Brasil sabemos que há muitos estudantes que nem celular ou sinal de internet tem.

Sim. Celulares smartphones quase todo mundo no país tem, porém, vivemos num Brasil com realidades sociais diferentes. Há casos em que só uma pessoa da família possui celular. Para ser mais específico podemos pegar um o exemplo de um determinado pai, que empresta o celular para filha, porque ela não tem aparelho próprio devido à situação financeira que não lhes permite adquirir um novo. É uma situação que nos faz refletir sobre as adversidades no âmbito social, parte dos brasileiros vivem, cujo cenário é preocupante e que precisa mudar.