Felipe Zmoginski, do AliExpress: temos o desafio de diminuir o impacto no transporte internacional de produtos

O head de comunicação do AliExpress no Brasil, explica que a maior preocupação do brasileiro está na qualidade do produto. Zmoginski também trouxe detalhes sobre as operações da companhia chinesa.

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Felipe Zmoginski aproveitou para deixar as projeções para os próximos 10 anos da companhia. (Foto: Gustavo Rampini/LIDE)

O head de comunicação do AliExpress no Brasil, Felipe Zmoginski, trouxe detalhes sobre as operações da companhia, uma das maiores do mundo no setor de varejo e-commerce. Na entrevista com Sonia Racy, o executivo fez comparativos com o passado e destacou que atualmente a empresa está mais ágil no sistema de entrega de mercadorias, isso graças a invstimentos no setor logístico e visão estratégica. 

Zmoginski também revela que o consumidor brasileiro tem perfil exigente. Na conversa, ainda avalia choques culturais e faz uma importante consideração ao afirmar que, apesar dos eventos problemáticos, a pandemia acelerou a digitalização do consumidor, sendo esse um ponto positivo para o marketplace digital, onde a plataforma chinesa está inserida. Confira a entrevista completa no programa Show Business.  

ASSISTA OU OUÇA A CONVERSA, NA ÍNTEGRA, NO PROGRAMA 'SHOW BUSINESS' 

Tanto o Alibaba e o Aliexpress cresceram bem nos últimos 20 anos. Quais vantagens vocês oferecem para consumidores e clientes para alcançar bons resultados?

O Aliexpress é uma das empresas que pertencem ao Alibaba, sendo um grande player de e-commerce, que engloba outras várias empresas de diversos setores. E uma delas está o Aliexpress, que promove uma conexão entre pessoas que desejam vender suas mercadorias para pessoas que querem comprar em qualquer lugar do mundo por preços atrativos.

Qual é a diferença entre o Alibaba e Aliexpress?

O Alibaba é basicamente o endereço onde que as pessoas na China utilizam para fazer compras pelo e-commerce. A forma mais correta de explicar é que o Aliexpress é que ele permite a venda internacional, onde o comprador faz a aquisição de um produto em uma outra nação. Mas nosso serviço também pode funcionar como atacado. Aqui, inclusive, há muitos brasileiros que seguem essa linha, em função do Aliexpress conectar as pessoas com os fabricantes e distribuidores (diretos do país de origem). Os preços são muito competitivos. Então, muitas pessoas que compram em grande volume, legalmente pelo Aliexpress, revendem as mercadorias em outros marketplaces de e-commerce, ou às vezes, no setor varejista off-line. A logística e o método mais simples estão nos serviços que o Express oferta. Pois, opera cinco voos semanais, conectado a China e o Brasil, Funcionando da seguinte maneira: caso o cliente compre um produto hoje, ele tem a garantia de recebê-lo daqui a sete dias no Brasil, via voos fretados.

E quais são os itens mais comprados pelos brasileiros?

Os campeões de vendas são os itens eletrônicos e não é difícil explicar o motivo. Porque são produtos com custo elevado no Brasil. Por isso é vantajoso adquiri-los pelo AliExpress. Mesmo enquanto pessoa física, você comprar qualquer produto para uso pessoal, isento de taxas, caso custem até U$50. Segundo mais vendido são roupas, depois, aparecem os produtos para mamãe e bebê fazerem o enxoval. Neste último ano, notamos uma mudança muito significativa no perfil do consumidor, vendo que muitos deles passaram a comprar itens para casa, como almofadas e outras mercadorias decorativas; ou do segmento de construção, a fim de fazer reformas. Ambos os casos tiveram um 'boom' enorme em procura durante a pandemia. Provavelmente pelo fato de as pessoas estarem mais em casa. Juntamente a isso, as webcams também tiveram uma explosão de vendas no mercado brasileiro, saltando para 37 mil% a mais no número vendas. Neste caso, a justificativa foi devido ao aumento de aulas e reuniões on-line. Nem todo mundo estava preparado para isso. Observamos que a pandemia da covid-19 mudou comportamentos de compra e aumentou muito a presença do consumidor brasileiro no comércio eletrônico.

Anos atrás, os produtos chineses eram sinônimos de baixa qualidade, o que mudou nos últimos tempos?

Houve sofisticação no modelo de produção da indústria chinesa. Nos anos de 1990, havia um fenômeno copycat, em que se apelidavam pejorativamente de xing ling o que era fabricado naquele país. Depois, vimos a mudança no padrão de qualidade dos produtos, com o surgimento de marcas conceituadas no mercado. É o caso das empresas Xiaomi, Huawei e outras. Há ainda patentes chinesas de 5G, indústria de carros elétricos e não para por aí. Obviamente que teve um tempo para que esse processo melhorasse e para que as pessoas percebessem isso. E, no de correr disso, ocorreu o trabalho de construção de branding. No caso do Aliexpress, hoje somos conhecidos como um marketplace global, pois você não encontra apenas produtos feitos na China. Incluo nesse rol de transformações, os produtos desenvolvidos na Europa, nos EUA, e que estão dentro desse marketplace. Incluindo grandes marcas como Apple, Disney e Samsung que estão presentes nas nossas operações, até muitos dos produtos dessas marcas são fabricadas na China mesmo, porque há um método de eficiência e produtividade melhor. 

Então posso comprar algo do Japão, Rússia no Aliexpress, por exemplo?  

Pode sim. A empresa possui, hoje, 212 países cadastrados na rota, tanto para receber ou vender produtos. Concentramos mais números do que os inscritos nas Nações Unidas (risos). Portanto, nem todos os mercados funcionam como exportador, mas é um processo que está acontecendo. E nosso objetivo final é realizarmos esse desejo de criar um grande espaço para comprar qualquer coisa de vários lugares e pessoas ao redor do mundo.

Quanto tempo vocês levam para inserir e distribuir um produto aqui no Brasil, pois convenhamos que é uma logística complexa.

Tempos atrás, nos deparávamos com transporte de mercadorias transborder que era feito por navios, o que demorava cerca de um mês para os produtos chegarem de um país a outro. Visando ganhar tempo, passamos a ter presença em voos fretados, conectando os fornecedores as suas mercadorias.  Por exemplo, neste momento em que conversamos, temos cinco aviões se organizando para  semanalmente estarem à nossa disposição. Operamos cinco voos por semana e estamos em negociação para conseguir mais uma opção de transporte na nossa frota comercial. Diretamente, o cliente que fizer o pedido em nossa plataforma, que em até 7 dias ele vai desembarcar no aeroporto internacional aqui no Brasil. Depois, o pedido passando naturalmente pela alfândega, em seguida vai para trânsito doméstico, por meio de empresas parceiras para a entrega final. Esse processo pode demorar até uns 12 dias, calculo eu.

Como está estruturado modelo de gestão da Aliexpress?

Com o uso de tecnologia de data e inteligência artificial, é possível gerenciar as demandas dos negócios. Temos basicamente o marktplace principal é a mesma tecnologia que atendem vários países. Vendedores de cada uma dessas nações montam suas lojas no site, vamos supor que alguém queira comercializar mobílias.  É possível incluir compradores do meu país ou do exterior no radar de clientes que desejam comprar minha mercadoria. Há ainda um sistema altamente sofisticado de traduções automáticas, que permitem traduzir as descrições em dezenas de idiomas. Isso garante que consumidores leiam a descrição de acordo com a língua de seu país e conheçam mais sobre o item. Quando a compra é feita, existe uma empresa própria para fazer o serviço de logística, chamada de Shop sign out, e que faz toda a operação de recolher na distribuidora ou fabricante e, em seguida, faz a distribuição para os mais de 210 territórios que abrangemos.

Quantos funcionários o Alibaba e o Aliexpress têm no geral?

O grupo Alibaba são 70 mil funcionários, já o Aliexpress não fornece os dados de cada divisão.

Mas nos EUA não exigem maior abertura dos dados para ter ações em bolsa?

São critérios interessantes, porque o Alibaba cumpre os mesmos critérios de transparência e governança corporativa que qualquer outra empresa listada na Nasdaq ou na The New York Stock Exchange. É claro que algumas informações como o número de funcionários são preservadas como forma estratégica diante dos competidores.

Como a imagem do Alibaba está atrelada à imagem do JackMa?

Ele é uma figura muito midiática, entretanto, é importante frisar que ele deixou completamente a companhia, há mais ou menos dois anos, não fazendo parte do boardig de conselheiros. Mas ainda possui 4% de ações do Alibaba. Atualmente, o CEO da empresa é o executivo Daniel Zhang, que desde a saída do Ma, vem tocando os desafios do grupo.

Vocês têm algum pleito junto ao governo brasileiro para fazer suas importações? Há alguma coisa poderia ser feito para melhorar as transações nas operações da empresa?

Nós brasileiros temos a ideia de que há espaço de ineficiência do ponto de vista da gestão pública que poderia ser melhorada. Não é o caso que verificamos no comércio crossborder. Hoje, a entrada e saída de pacotes é totalmente informatizada, os serviços da receita são muito eficientes, algumas liberações de produtos, por exemplo, acontecem enquanto o avião está no ar, prestes a pousar no país. Ainda da aeronave, são levadas informações dos valores e das características das mercadorias.  Não há problemas nesse fluxo. Claro que quando chega em território nacional, há uma análise minuciosa, o produto passa por raio-x...  Mas é algo normal e bastante eficiente. Diria que o nosso principal desafio está relacionado à exigência do consumidor local. Inclusive, em comparação a outros compradores pelo mundo. Porque o brasileiro é considerado o mais exigente, pois almeja mercadoria de mais qualidade. E faz questão de valer seus direitos e, se houver porventura  sinais de avarias, vai desejar a troca do produto sem custos.

E é possível trocar sem custos?

É sim, Sonia. Garantimos essa praticidade. Existem categorias em que o cliente não arca com as taxas de correio para enviar o produto de volta ao país de origem. O novo consumidor brasileiro, que passou a utilizar as plataformas de e-commerce, é bastante exigente no aspecto qualidade. É um desafio permanente oferecer a melhor experiência de compra para agradar esse perfil.

Atualmente, quem é o maior competidor do Aliexpress?

São os comércios off-line, competição para nós e todas as outras empresas que utilizam as plataformas de e-commerce pelo país. Todavia, a disputa nesse setor é muito saudável e tende a beneficiar o conjunto do mercado. Baseando-me em números, o varejo antes da pandemia, 95 %das compras aconteciam em pontos físicos (off-line) e apenas 5% em ambientes on-line. Com a pandemia esse número melhorou bastante, hoje, temos 10% no digital e 90% no off. Mas, se observamos os mercados mais avançados, como por exemplo Reino Unido e Coreia do Sul, nesses países cerca de 30% do varejo já está no canal digital. Na china, a presença é mais elevada, chegando ao patamar de 51%. Ainda há um enorme desafio para alcançarmos a digitalização.

E como pretendem ampliar esse mercado aqui no Brasil?

Um dos nossos métodos foi usar ferramentas de comunicação e de marketing. Acabamos de realizar uma ação com a Ivete Sangalo, em conjunto com o programa Criança Esperança, patrocinamos reality shows da televisão e tivemos outras iniciativas na mídia de massa, esse é um método. Há um ambiente macro, que envolve as pessoas terem meios de pagamento facilmente acessíveis. A oferta de internet de qualidade em residências, fora dos grandes centros urbanos, ainda é um desafio. Observamos essa dificuldade quanto ao acesso quando crianças tiveram problemas para acompanhar as aulas on-line, pois vivem em comunidades ou cidades que ficam longe de regiões privilegiadas.

Por outro lado, pandemia certamente continua sendo uma tragédia para nossa sociedade, mas foi um evento que acelerou o processo de digitalização do consumidor e das empresas, o que acaba beneficiando o e-commerce.

Em termos de gestão socioambiental, como vocês aplicam isso aqui no Brasil?

Um dos desafios que temos é o de diminuir o impacto que há no transporte internacional de produtos. O mundo é globalizado, quase tudo que consumimos é feito em outros países. Uma das tecnologias que implementamos, Aliderect, permitiu por meio de ferramentas de bigdata, identificar os vários pedidos que as pessoas fazem em diferentes marketplaces, juntá-los em um único pacote e mandá-lo como uma única remessa. Isso diminui o número de deslocamentos e viagens. Tanto em termos de custos e menor emissão de poluentes, isso teve um efeito significativo. Outro ponto é a seleção dos vendedores, que devem cumprir critérios desde respeito à legitimidade das marcas, tudo isso agrega às regras estabelecidas pelo conceito de governança, presente no ESG. Essa triagem é feita permanentemente em todos os mercados, por uma equipe ativa, e via avaliação dos comentários dos usuários da plataforma, feita há 10 anos.  

Como é feita a diferenciação e controle de um produto poluente ?

Qualquer produto que é vendido no Aliexpress precisa ser autorizado a entrar em cada um dos países. Então, um serviço atuante em 200 países deve se adaptar às 200 legislações. Como no caso da Europa, onde existem restrições com produtos que emitam poluentes. Aqui no Brasil tem uma legislação bastante moderna, mas mais recentemente, houve um relaxamento em algumas medidas. Apesar disso, o país tem leis ambientais consideradas mais atuais. A mercadoria deve ser autorizada antes de ser comercializada, depois, isso passa pelo processo de seleção e avaliação antes de ter essa atualização de operar dentro do marketplace da empresa. Esse é um processo permanente, não quer dizer que após aprovado não terá análise sobre sua comercialização.

Felipe, você passou por treinamentos ou teve vivência na China antes de assumir o cargo?

Tenho uma história com a China que remota minha adolescência. Estou com 40 anos, e lembro-me de quando tinha 12, durante o período governo Collor, meu pai era um pioneiro nas importações. Fazia inglês naquele tempo e meu pai se tornou tradutor, porque eu ajudava a traduzir as conversas com empresários chineses, no intuito de comprar produtos para vender aqui no Brasil. Depois de adulto, fui estudar chinês e vivi na China. Tive oportunidade de trabalhar cinco anos no Baidu, que equivale ao buscador Google, mas lá no país asiático. Em seguida, vinha trabalhando com uma empresa de consultoria, quando finalmente recebi o convite para participar dessa operação do Aliexpress que estava se expandindo no país. No cenário ideal, eu faria um treinamento como todos os contratados, mas devido à pandemia, não conseguimos desembarcar lá. Então, todo o curso foi feito on-line. Mas, em termos pessoais, posso afirmar que a relação que estabeleci com a China foi a melhor coisa que me aconteceu, nos sentidos de pontualidade e foco em resultados, essas foram, com certeza, algumas das contribuições que a cultura chinesa teve na minha formação profissional.

Como ocorreu o processo de adaptação entre culturas tão diferentes? Quem teve a iniciativa de querer se moldar à determinado padrão de comportamento: você ou os chineses?

Responder sua pergunta é fazer um comparativo com o filme American Factory, longa que conta a história de uma fábrica americana de vidros para automóveis, depois comprada por empresários chineses. Passei por esse conflito cultural, assim como existiu na história do filme. No início da minha experiência, há oito anos, estava preocupado com a adaptação às regras ao método de trabalho das pessoas do país asiático. As corporações de lá são muito 'juvenis', sendo recentes no processo de internacionalização. Muitos dos gestores ainda têm pouca experiência em lidar com o subordinado ou colegas estrangeiros. Mas houve uma mudança. Recentemente, percebo um nível de preparo muito diferente do passado. Hoje, são executivos mais preocupados com as culturas locais, têm jovens que foram fazer vivência no exterior, que retornam para casa com outra visão de mundo. Analiso que temos uma liderança chinesa mais globalizada e mais moderna no nosso ponto de vista. Não quer dizer que de uma hora para outra houve mudança de paradigmas e ausência de choques culturais, porque são questões que continuam existindo. A comunicação ainda é uma dificuldade, no modo geral, o chinês quando pergunta quer saber se há engajamento da equipe, e não promover um debate – algo que nós brasileiros estamos habituados em reuniões corporativas.

Quantos funcionários brasileiros compõe o time do Aliexpress?

A equipe tem um volume grande de brasileiros, chineses e de outras nacionalidades também, como Índia e Turquia, difícil de mensurar um número exato. Posso fazer um acréscimo sobre a pandemia, que em função disso, esses funcionários passaram a trabalhar de maneira remota.

Felipe, diante da sua experiência, é possível fazer uma previsão de como estarão o mundo e a AliExpress daqui a 10 anos?

Dá sim, por meio dos objetivos que traçamos. Temos a meta beneficiar mais de 2 milhões de consumidores, até 2030, para que possam se conectar em qualquer lugar do mundo e encontrar mercadorias com o melhor preço. Além disso, temos o intuito de ajudar a gerar mais de 30 milhões de empregos, ligados às diferentes lojas e atividades conectadas ao e-commerce. Há uma transformação no mercado de trabalho e poder criar lojas on-line para vender serviços que beneficiem várias pessoas ao redor do mundo, é uma tendência inevitável. Esperamos colocar nossa tecnologia a serviço dessa transformação.

Você consegue deixar um panorama de como a pandemia afetou as operações da companhia?  

A pandemia teve efeito positivo sobre as nossas vendas. Por exemplo, há uma data comercial da empresa, que é o 11 de novembro, que, em 2020, registrou faturamento muito maior que o ano anterior (pré-pandemia). Esse período foi complicado, acabou fechando vários varejos, mas também fez com que as pessoas recorressem ao e-commerce. A própria dificuldade econômica obriga que o usuário faça mais pesquisas de preços. E a média dos valores dos nossos produtos, geralmente está 30% mais baixa, então, isso teve um movimento positivo.

Mas eventos como a fala do ex-presidente americano, Donald Trump, que fez acusações de que a China é culpada pelo vírus, afetou o volume de vendas da empresa nos EUA?

Não registramos esse movimento por lá. Talvez tenha havido alguma baixa, se houver análise mais ampla e considerando o comércio off-line, mesmo assim penso que não. Porém, se olharmos a balança comercial dos Estados Unidos e compará-la com a China, apesar de todo o barulho que Trump fez, o déficit americano com os chineses continua igual. Isso se reproduziu no Brasil, quando o governo teve uma retórica mais ‘quente’, mas isso alterou nossa balança e as negociações entre os dois países.